Nota

Sou dominada ou se domino?

Desafio-te a ficar esta noite
Comigo e o que resta de mim em ti
 
Para que eu fique a saborear quem era
 
Os olhos com que me vias
A boca com que me tocavas
E possa ser novo e amar-me egoisticamente
E ser somente anterior primavera
Fazer-me crescer e enraizar-me em ti
 
Sorrateiramente…
 
Aventureira hera
Que morre mas desenhou tudo aquilo que fica
Eternamente…
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Minha Mulher

A minha mulher
tem mistério insondável,
recato impenetrável
aos olhos voyeurs.

A minha mulher,
tem uma nudez invisível
e um olhar transparente
só para o que quer.

A minha mulher
tem o encanto das fadas
e a magia das bruxas
quando estamos em nós.

Ela sabe fazer-se inteira
nunca está em pedaços
sabe todas perícias
atar e soltar nossos nós.

Nela, o meu corpo presente
é mais do que tudo,
do eterno, um estudo,
quando estamos a sós.

Ela tem a magia dos celtas,
obtém a têmpera correta,
de traz-nos o instante
de toda eternidade.

Ela tem o erotismo dos anjos
o silêncio dos sábios
ao dizer o que é
ser a minha mulher.

 

Nota

Por Mim

Teus negros olhos uma vez fitando
Senti que luz mais branda os acendia,
Pálida de langor, eu vi, te olhando,
Mulher do meu amor, meu serafim,
Esse amor que em teus olhos refletia…
Talvez! – era por mim?

Pendeste, suspirando, a face pura,
Morreu nos lábios teus um ai perdido…
Tão ébrio de paixão e de ventura!
Mulher de meu amor, meu serafim,
Por quem era o suspiro amortecido?
Suspiravas por mim?…

Mas… eu sei!… ai de mim? Eu vi na dança
Um olhar que em teus olhos se fitava…
Ouvi outro suspiro… d´esperança!
Mulher do meu amor, meu serafim,
Teu olhar, teu suspiro que matava…
Oh! não eram por mim.

Por Decoro

Quando me esperas, palpitando amores,

E os lábios grossos e úmidos me estendes,

E do teu corpo cálido desprendes

Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,

Nesta prisão de músculos te prendes,

E aos meus beijos de sátiro te rendes,

Furtando as rosas as purpúreas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,

Entrefechados, languidos, tranquilos,

Olham meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,

Deveria, perdoa-me, cobri-los

Uma discreta folha de parreira

 

Artur Azevedo

Status

Invicto

Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.
Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.
Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.
Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.
(William Ernest Henley)